Êxodo 17. 1-7

Em nome de Jesus. Amém.

            No nosso contexto, nós, volta e meia, precisamos usar o ônibus. Eu não tinha esse problema de onde eu vim e fiz uma descoberta: Eu não gosto de esperar ônibus. Não sei se isso é um lazer para alguns, mas, enfim, tira o nosso conforto. Pensando sobre isso me parece que uma das coisas mais irritantes disso tudo é que não podemos controlar quando o ônibus chega. Perdemos o controle do tempo, ainda mais no Brasil onde ele nunca chega na hora. Ficamos irritados e perdidos quando nosso planejamento vai por água abaixo.

            O povo de Israel vivia em uma certa rotina enquanto ainda estavam no Egito trabalhando como escravos. Tinham, de forma precária, água, comida, viviam, trabalhavam, ficavam velhos e morriam. Por mais infeliz que fosse, ainda assim, podiam “prever o futuro”. Assim como nós constantemente prevemos o futuro, o jornal nos diz o tempo de amanhã, o preço das coisas, o que está acontecendo pelo mundo e onde tudo isso vai parar. Mas Deus decide tirar o povo de Israel dessa rotina. Tira o povo da escravidão e leva para o deserto. No deserto o povo está sem recursos. O deserto é um lugar sem nada, sinônimo de solidão e falta de vida. Ali Deus colocou o povo de Israel.

            Depois de um tempo o povo começa a passar por algumas dificuldades e, no nosso texto, a falta é de água. Então, as pessoas olham para suas famílias e suas criações e começam a ter medo, medo por estar em um lugar onde não podem prever nada. Estão na total dependência no meio do deserto. O que comer e o que beber não depende mais deles. Ficam incomodados com esta falta de controle e começam a se questionar e duvidar se Deus está presente naquele momento.

            Chegaram num impasse. Aqueles que antes desejavam a liberdade, agora veem nela uma maldição. Acreditam que desejaram a coisa errada. Pois agora a vida é incerta, não dá para prever quando a morte virá a todos. Não está nas mãos deles. A necessidade do povo faz com que eles acreditem que Deus não mais os ama, a ponto de pensar que Ele os abandonou no meio do deserto, o mesmo Deus que os libertou, fazendo-os atravessar um mar em terra seca. Começam a se perguntar: onde está Deus?

            De todas as perguntas que passam pela cabeça das pessoas, esta é uma das mais presentes. O ser humano tem dificuldades de acreditar naquilo que não vê. É muito comum tentarmos procurar onde Deus está, pedindo sinais especiais, questionar e duvidar. Essa pergunta é muito difícil para o ser humano.

            Porém Deus nos mostra a sua presença de uma outra perspectiva. Como ele se apresentou no nosso texto? Deus fala para Moisés bater na pedra em Horebe e da pedra sai água para o povo beber. Por mais que o nosso texto diga que Deus estava junto neste momento, as pessoas viram somente a Moisés. E agora? Será que Deus realmente não se faz presente entre o povo?

            Deus nos convida a olharmos esta passagem com cuidado. Ele se esconde na figura de Moisés e assim ele mesmo dá água para o seu povo sedento. Essa é a nova perspectiva. Deus se esconde nas coisas e nas pessoas para nos dar cada dia dádivas e milagres.

            Quando olhamos para as pessoas Deus está escondido por detrás delas. E estas pessoas nos estendem comida, água, roupas, vestes, abraços, acolhimento, sua amizade e fazem com que nos sintamos pessoas amadas. Através das pessoas Deus realiza suas obras nos conservando e amando, pois somos seus filhos amados.

            Mas como nos tornamos estes filhos amados? Deus em sua graça decidiu amar o mundo da seguinte forma, ele enviou seu único filho Jesus Cristo para o mundo. Aqui no mundo ele assumiu a forma de servo. Ele não tinha aparência nem formosura. As pessoas que olhavam para ele não viam nada que os agradasse. Era desprezado e muito rejeitado entre os homens, não estavam nem aí para ele. Mas justamente este homem, a quem nenhuma pessoa atribuiria valor, este homem era também Deus que estava escondido entre nós.

            Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossa dores carregou. Quem olhava para ele dizia que estava pagando por seus próprios pecados e maldades. Mas ele foi transpassado pelas nossas transgressões e foi moído pelos nossos pecados. O castigo que estava sobre ele era o nosso castigo e através do sofrimento dele nós fomos curados.

            Por mais improvável que seja é na cruz de Cristo que nós conhecemos o amor de Deus por nós. O único justo que morreu carregando o nosso pecado e a nossa morte. Ele nos carrega para dentro dele no nosso batismo. Ali nós morremos com Cristo para o pecado, a morte que nos condena para o inferno ele morreu por nós. E se com ele morremos com ele nós ressuscitamos para a eternidade. Agora Cristo faz brotar em nós uma fonte de água da vida.

            A nossa vida toma uma perspectiva diferente. Não precisamos mais sair por aí procurando Deus. Pois ele apresenta seu amor todos os dias de forma escondida. Nas pessoas que vemos e nas coisas que recebemos diariamente é a presença de Deus nas nossa vidas. Vocês foram carregados para dentro de Jesus Cristo no batismo. Agora são pequenos cristos que carregam o amor de Deus por onde vocês andam. Mesmo que seja na parada do ônibus ou quando a morte vem ameaçar vocês, Deus prometeu estar presente. Deus mostra ao povo que mesmo ele não aparecendo diante dele como eles gostariam, ele jamais deixou faltar o principal, a salvação. Se a vontade de Deus é esta, em nos dar aquilo que não merecemos, que esta vontade nunca acabe. Amém.

Aluno: Gabriel Sonntag, quarto ano teológico, Seminário Concórdia

MENSAGEM 7º DOMINGO APÓS EPIFANIA – Levíticos 19.1-2; 9-18

Em nome de Jesus. Amém.

Estimados amigos aqui do Seminário, num final de semana do estágio, eu tive a oportunidade de participar de um encontro esportivo de jovens luteranos. Aconteceu que, em vários momentos durante o evento, me chamou atenção um discurso sempre repetido antes de cada jogo, principalmente antes das partidas de futebol. Juntavam-se os jogadores numa rodinha e um pastor ou um líder jovem repetia sempre o mesmo discurso: “– Olha pessoal! Como jovens cristãos e luteranos, nós devemos dar exemplo nos jogos. Vamos mostrar aos de fora que somos ‘diferentes’.” Entretanto, no decorrer de cada partida, acontecia o mesmo quebra-pau que vemos em outros jogos, mesmas discussões e em alguns casos até briga.

Alguns poderiam perguntar: – Mas e aí, qual a conexão desse exemplo com o texto lido hoje? Acredito que esse exemplo traz à tona um assunto muito interessante que aparece no texto de Levítico, do qual quero falar com vocês. Vou falar a respeito da santidade.

A igreja continua a pregar a respeito da santidade. Em vários momentos da vida ouvimos falar do viver santo. No texto lido antes, Deus convida todo o seu povo a ser santo. (Ler v.2 do texto) Mas, de qual santidade Deus fala aqui? O fato de sermos cristãos torna nossa vida mais santa de que a vida das pessoas do mundo? Somos de fato os santos de Deus?

Queridos ouvintes, como vimos no exemplo antes citado é comum entre os religiosos, ou melhor, entre os cristãos, dar grande enfoque na boa conduta da pessoa – principalmente a boa conduta que deve ter o povo de Deus. No decorrer de toda a Bíblia encontramos mandamentos ou indicações de Deus da melhor maneira de se viver. No texto indicado para hoje, Deus fala as melhores maneiras do seu povo agir: ajudar os pobres e necessitados, não furtar, não mentir, não amaldiçoar, não cometer injustiça, não atentar contra a vida do próximo e nem se vingar. Estes são, sem dúvida, os melhores exemplos de como ter uma vida sadia e feliz nesse mundo. No entanto, na medida em que se dá extrema ênfase à boa conduta que o homem deve ter, corre o risco de se cair no grave problema da “ilusão”. Isso mesmo, a ilusão.

O ser humano gosta de mostrar aos outros certo grau de santidade. Afinal de contas, quem é que gosta de se apresentar como exemplo de imperfeições e falhas? O ser humano gosta e quer se apresentar aos outros como “exemplo de vida”. No entanto, o problema é que pode ocorrer, e é muito fácil de ocorrer, é o cristão acabar criando uma ideia ilusória de si próprio. Crer que por não ter matado ninguém durante a semana, não ter xingado ninguém durante o dia ou não ter furtado dinheiro para comprar seu pão de cada dia, ele está conseguindo permanecer no alto grau de santidade que Deus exige.

Quando iludido a respeito de si próprio, é muito fácil olhar para um pecador que não conseguiu permanecer no alto grau de santidade e orar como o fariseu em Lucas 18: (Ler Lucas 18.11-12). Esta é a ilusão que Deus condena. A ilusão que vê um adúltero ou um assassino como alguém inferior e diferente de nós. Estimado ouvinte, pergunte a alguém preso por assassinato, caso ele acordou de manhã e pensou: – Já sei! Vou matar alguém hoje! Não, meus amigos! Sua ação desabrochou do mesmo coração que habita em você que me ouve e em mim. Os sentimentos que o levaram a cometer tal ato também habitam dentro do seu e do meu peito. Deus é que não deixa que esses sentimentos aflorarem com tanta intensidade em nós. Deus, constantemente, nos impede de cometermos ações consideramos escandalosas aos olhos do mundo, ações que poderiam desestruturar e acabar com nossa vida terrena. Isso, porque somos melhores? – Não! Mas, porque Deus tem misericórdia de nós.

“Santo sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus sou santo.” Acredito que podemos olhar essas palavras não apenas como um mandamento, mas também como uma “promessa” de Deus ao seu povo. Promessa que já foi cumprida no passado com a morte de Deus numa cruz. Promessa se cumprirá completamente na ressurreição. Mas tenho plena convicção em dizer que é uma promessa que Deus já cumpre diariamente na nossa vida. Somente Deus é quem torna o dia a dia do seu povo santo.

Cada aula ministrada por um professor, cada minuto de estudo para uma prova de hebraico, cada momento que marido dá atenção à sua esposa ou namorado à namorada, a dedicação de pai e mãe ao cuidar do filho, cada abraço do vovô e da vovó nos netinhos e até cada campão que jogamos dia de sexta-feira, são obras santificadas pelo nosso Deus. Deus é quem santifica toda a nossa vida. Sem dúvida, o fato de sermos cristãos não nos torna melhores do que as outras pessoas. A única diferença é que você que me ouve sabe do grande amor que o Santo Deus tem por você, assim como você é.

De início, citei o discurso presente no começo de cada jogo. Tenho sérias críticas a respeito do mesmo, justamente por tentar passar uma borracha em cima da natureza que está arraigada no coração homem; natureza que muitas vezes se aflora num jogo de futebol. (Quem joga futebol, tente perceber isso em vocês mesmos na próxima partida.) Na verdade, o discurso deveria ser outro: “– Como cristãos, sabemos que podemos nos exaltar, como em qualquer outra partida de futebol. Mas, como cristãos, sabemos reconhecer quando erramos e quando precisamos pedir perdão.”

Meus queridos amigos, não precisamos tentar de todas as formas expressar aos outros a nossa santidade. Não precisamos descer para o campão de batina ou de mãos dadas para expressar o quanto somos santos. O que precisamos é continuar vivendo. Cumprir nossos a afazeres diários sabendo que Deus está ao nosso lado – nos observando, rindo conosco (principalmente com os ‘bolas murchas’ do campão); Deus chorando; Deus ajudando a cuidar de seus filhos e de seus netos; e santificando cada ação nossa. O Deus do povo de Israel, o nosso Deus, santifica não somente o nosso momento de culto, mas toda a nossa vida.

A perícope de hoje termina com o belo mandamento dito também por Jesus e que todos vocês conhecem – “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Ler v.18) Me respondam se tudo o que disse anteriormente é ou não é amor ao próximo? Respondam-me se cuidar dos familiares, dar aula para futuros pastores e estudar para um dia consolar corações é ou não é amar o próximo? Vocês amam o próximo. Vocês vazem isso no seu dia a dia e quando falham em algum aspecto, saibam que Deus está pronto para lhes perdoar e ajuda-los sempre a amar mais e mais.

E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. (Fp 4.7) Amém.

Aluno: Raul Saulo Pagung, sexto ano teológico, Seminário Concórdia.

A dimensão da Graça de Deus

Romanos 5. 12-21

Sobreveio a lei para que avultasse ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça vv. 20.

Estimados irmãos em Cristo, no nosso contexto atual aonde é que graça de Deus quer abundar, ou em quais situações? Existiria um lugar que Deus não estaria presente com a sua graça?

Na semana passada, estive acompanhando um pouco as manifestações das pessoas no “Facebook” e era impressionante o que escreviam a respeito do carnaval. Algumas frases do tipo: “Sou cristão não da carne”; “Sou uma nova criatura, o carnaval não é pra mim”; “Ser cristão é nadar contra a natureza” e até umas mais radicais como esta: “Abertas as inscrições para o inferno”.

A graça de Deus está presenta na vida daquelas pessoas? Será que Deus não estava no meio de toda aquela folia?

 

O texto da pericope aponta para um contexto onde Deus jamais poderia estar presente, o pecado desvendado no jardim do Éden através de Adão: por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5.12) A partir desse fato, Deus não poderia mais estar junto das pessoas, a história da humanidade seria afetada e a vida passou a ser uma catástrofe interna. A harmonia que existia entre o Criador e a criatura foi rompida pelo pecado, e resultou na morte. A criatura passou a ser dominada pelo medo, pela dor, pelo sofrimento, pela perdição e a condenação.

E no pior cenário que existiu na humanidade no pecado de Adão, que é o nosso pecado, a graça de Deus quis se mostrar presente na vida dele. Numa esperança de que a coisa seria diferente. Na promessa registrada em Gênesis 3.15 “porei inimizade entre ti a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. A graça de Deus se revelava na promessa de que ele jamais desistiria da sua criatura. E, é neste sentido que o apóstolo Paulo afirma: se pela ofensa de um só, morremos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, serão abundantes.

Pelo lado de Adão, nós temos uma transgressão e um resultado: a Condenação. Pelo lado de Cristo há o milagre de sermos aceitos novamente por Deus, termos paz por médio do seu filho. Pois Deus tirou e peso da morte sobre o ser humano.

No lado de Adão, existe o peso da Lei que não pode ser cumprida pelo homem. No lado de Cristo, temos o lindo presente da graça. É algo estabelecido por Deus desde a queda em pecado e não pode ser mudado, pois a sua graça se encontra na cruz de Cristo.

 

Sendo assim, onde nós nos situamos? Com Paulo queremos reconhecer a força do mal que reside em nós. Com ele pedimos a Deus para que reconheçamos cada dia mais a força e a dimensão dessa graça salvadora. Com Paulo vemos que estamos propensos ao pecado que habita em nós e é muito fácil cair. O pensar: isso nunca vai acontecer comigo, eu não vou cair nesse ou naquele pecado; não é um pensamento correto. Este é um caminho muito perigoso. O correto é dizer: posso fazer todo e qualquer pecado, tenho tudo pra isso, mas a graça de Deus não permite. Porém, se cairmos em pecado, é nesse momento que a graça de Deus é mais relevante.

Assim foi com Adão quando ele pecou. Adão pensava que Deus jamais estaria com ele após a queda, mas acontece o contrário. Vemos um Deus que não mede esforços para buscar e salvar a sua criatura. No caso de Adão, que é o nosso caso, Deus toma a iniciativa de ir ao encontro da sua criatura. Ele demonstra que não há circunstancia que não possa ser mudada, compreendida ou perdoada. Se a morte é um fato em nossa vidas, a graça de Deus e ressurreição é a certeza de que Deus vai além.

E ainda, queremos que Deus nos ensine a vencer a nossa própria resistência. A oportunidade de Deus chegar com sua graça é no momento que estamos na desgraça do pecado. Neste sentido, Lutero, parafraseando o versículo 20 afirma: E se muitos pecados são, em Deus mais graça temos. Não tem limites seu perdão; sempre o receberemos (Lutero – hino 349). Havia citado no início todo o que envolve o carnaval e as frases que vemos e ouvimos. O que não ouvimos muito é que nesse ambiente, Deus quer abundar a sua graça também. As pessoas que estão na folia, seja qual seja a motivação delas para frequentar o ambiente, são as mesmas pessoas que Deus decidiu derramar a sua generosidade e misericórdia infinita por meio do seu Filho.

Pois Jesus, quando veio a este mundo, veio para resgatar, devolver a vida das pessoas no sentido de vida eterna. Mas também veio para moldar e oferecer o seu amor no dia a dia sem cobrar um comportamento moral de cobrança e punição. E quais tipos de pessoas eram? Pecadoras, prostitutas, corruptos, pobres, desamparados e aflitos; pessoas que a sociedade muitas vezes julgava como as piores que cometiam as piores atrocidades. E Jesus ia ao encontro dessas pessoas; olhava para elas, conversava, dormia e comia na casa delas, e assim, pregava a sua mensagem da graça de Deus que é dom, algo que não merecemos, mas Deus faz abundar na vida de qualquer pessoa.

No nosso contexto do seminário, vemos os reflexos dessa graça a cada novo dia: quando estamos cansados, sobrecarregados, decepcionados com os nossos colegas, talvez professores ou nós mesmos. É neste momento que Deus faz a sua graça transparecer, e as virtudes do seu reino aparecer em nossa vida. Quando o semestre estará pesado ou quando vamos sentir saudades das pessoas que amamos e estão distante de nós, Deus estará oferecendo a sua graça. Quando no futuro e mesmo agora tivermos dificuldades na organização do tempo ou nos conflitos de uma congregação, Deus estará oferecendo o seu apoio com a sua graça que não tem fim e se renova a cada novo dia. Pois vivemos no tempo da graça e este tempo não terá fim. Este tempo foi inaugurado por Cristo, o recebemos no nosso batismo, e com sua graça somos conduzidos ao céu.

“Que a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo esteja com todos nós” Amém.

Autor: Walterson Junior Siewert Lang, sexto ano teológico, Seminário Concórdia.

Somente em Deus: Sexto Domingo após Epifania

 Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!

 O Apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, afirma: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega; mas Deus que dá o crescimento!” (1Co 3. 6 – 7)

 É comum vermos em nossos dias, principalmente nas redes sociais, os cristãos exaltando mais os seus pregadores e líderes do que a própria Palavra de Deus que está sendo ensinada. Por vezes, parece que também os luteranos dão muito mais ênfase no orgulho aos reformadores do que naquilo que Deus realizou através desses servos. Não que, de todo isso seja errado; no entanto, precisamos cuidar para não mudarmos o foco da Mensagem e, não cairmos na tentação da idolatria de nós mesmos, como Lutero lembra: “O pior de todos os ídolos é o nosso próprio ego!

 No âmbito pastoral, precisamos nos afastar da vaidade e pretensão de achar que podemos, por nós mesmos, fazer a diferença na vida das pessoas. Somente a Palavra e os Sacramentos (ou seja, somente Deus) podem fazer a diferença na vida do homem; somente o Senhor pode preencher o vazio do coração humano.

 Os cristãos de Corinto estavam enfrentando uma dificuldade parecida; não que eles tivessem abandonado a Fé; mas, aos poucos, estavam desviando o seu olhar daquele que é o mais importante, aquele que lhes deu a salvação. É por isso que São Paulo precisa intervir e escrever aquela Igreja, no sentido de alertá-la sobre o problema, e, apontar o foco e objetivo da Fé Cristã! Nesse aspecto, o Apóstolo ressalta quão importante é o Serviço do Ministério, mas direcionando para o fato de que, sem o principal, que é Deus, nem mesmo o Ministério tem valor; por isso nos lembra de que aquele que foca no pregador e não na pregação não anda segundo o espírito, mas segundo a carne; ainda vive a mercê de sua própria vaidade e de seu egoísmo. Afinal de contas, isso somente traz a Igreja de Cristo ciúme, inveja e divisão; quando na verdade a pregação cristã nos remete ao amor ao próximo, a comunhão e a esperança da vida eterna!

 Como estudantes, pastores e professores, precisamos pregar este ensinamento primeiro a nós mesmos, deixando a Palavra de Deus ensinar que nada somos, nada podemos fazer e não temos poder algum para mudar o coração do outro; além disso, esta mesma Palavra também visar revelar aquele que nos usa como instrumentos em suas mãos, que fala através de nós, e chega aos corações de tantos que necessitam e anseiam o conforto, a paz e a esperança!

 Enfim, como cooperadores, servos, trabalhadores na Seara do Senhor, temos o privilégio de anunciar não a nossa mensagem, mas o Evangelho de Cristo; até mesmo seguindo o exemplo de homens do passado como os apóstolos ou os reformadores; mas, não colocando eles ou nós mesmos acima do que é primordial: A Obra de Cristo na Cruz! Se não fosse o Senhor, quem seria Paulo, Apolo, Pedro, Lutero ou mesmo cada um de nós aqui hoje? É por isso que o próprio Lutero clama: “Peço a omitir o meu nome e não se chamar luteranos, mas cristãos. Que é Lutero? A doutrina não é minha. Tampouco fui crucificado em favor de alguém!

 A melhor oração que podemos fazer como pastores ou futuros pastores, é aquela famosa frase que aprendemos nas aulas de sistemática e homilética: “Senhor Deus, ajuda-nos a não atrapalharmos a Obra do Espírito Santo em sua Igreja!

 Que Deus nos guie nesta Verdade que nos liberta de nós mesmos e nos ajuda a sempre focarmos em Cristo, pois somente nele temos tudo o que é necessário tanto para a nossa vida nesse mundo como também para a nossa salvação; afinal de contas, parafraseando um professor nosso: “O que Deus dá é muito mais do que podemos guardar!” 

 Deus nos abençoe! Amém!

Autor: Helvécio José Batista Júnior, sexto ano teológico, Seminário Concórdia.

5º Domingo após Epifania: 1 Coríntios 2.1-16

Abertura do Ano Letivo do Seminário Concórdia

9 de fevereiro de 2014

Em nome de Jesus, nosso Salvador. Amém.

Meditamos no texto da Epístola deste dia, em especial os versículos 1 e 2 de 1 Coríntios 2: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”.

Estimados professores, funcionários e estudantes desta casa, estimados pastores e membros da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, estimados familiares de nossos alunos e visitantes. As palavras do apóstolo estão diretamente ligadas ao tema principal do capítulo anterior – a palavra da cruz, que é loucura para os que se perdem, mas é o poder de Deus para salvar. Em outras palavras, Deus decidiu salvar o mundo por meio da cruz – isto é, por meio da morte de seu Filho Jesus Cristo.

No próprio capítulo 1 Paulo ilustrou esta verdade mostrando que Deus chamou muitas pessoas em Corinto que não seriam consideradas importantes pela sociedade. Agora, no texto de hoje, Paulo dá uma segunda ilustração, com a sua própria pessoa – e que vale para os pregadores de hoje, os atuais e os que estão se preparando para o futuro ministério.

Ao dizer, “quando fui ter convosco … não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria”, Paulo está contrastando sua atuação, sua maneira de anunciar a mensagem, com alguns oradores da época, que usavam de artifícios para convencer, mesmo que a mensagem não fosse significativa.

Ao dizer isto, Paulo está fazendo um alerta também para a igreja hoje. Deus não é o Deus do espetáculo humano! Mas da cruz! Há pouco tempo li uma tese de doutorado de uma socióloga cristã, que faz um extenso estudo sobre uma denominação cristã brasileira e sobre como nossa sociedade está se caracterizando por ser uma “sociedade de espetáculo”, que acaba se refletindo na maneira da própria igreja agir. Cuidado  – a igreja cristã, a noiva de Cristo, amada e purificada pelo batismo, está sendo invadida por uma sociedade do espetáculo! Tudo tem de ser espetacular, tem que “mexer” com as pessoas, tem que fazer chorar, ou rir, ou cair, ou levantar. Tem que – como às vezes se diz – ter “poder”! Mas que poder?

No tempo de Paulo, este “poder” se manifestava nas práticas dos retóricos, que se gabavam de ter a melhor capacidade de convencer as pessoas pelo discurso (nada diferente do que se vê muitas vezes na política hoje). Naquela época a palavra tanto falada como escrita era instrumento para convencer pessoas e chamar a atenção para aquele que estava falando ou escrevendo. Isso também vale hoje, mas como lembra um comentarista desta epístola, vivemos num tempo em que talvez a eloquência retórica do tipo clássico já nem mais impressione tanto como a imagem! Assim, em nosso tempo, o instrumento para chamar a atenção mais para o pregador do que para a mensagem não é só a capacidade de falar e convencer pelo discurso.  A imagem do pregador, e junto com ela o sentimento e emoções que ele consegue fazer as pessoas sentirem, por vezes acaba sendo mais importante que a mensagem.

Por vezes se fala que se quer ser como Davi e matar gigantes, como Moisés e abrir o mar, como Abraão e fazer uma longa jornada de fé, como Paulo e evangelizar nações distantes … mas se esquece dos milhares, milhões de cristãos anônimos e de pregadores do evangelho que na história e que hoje são instrumentos de Deus em tarefas simples, aparentemente pequenas, fracas! O pastor que visita o idoso no hospital e lhe leva a santa ceia; que batiza aquela criancinha que ainda nem tem noção do que está acontecendo; que anuncia fielmente a salvação exclusivamente em Jesus para o pequeno rebanho que está a sua frente; que aconselha o jovem que se sente tentado a cair da fé diante do que ouve nas aulas na faculdade … estes são verdadeiros milagres! Quem quer fazê-los? Sem ostentação, sem chamar a atenção … coisas que a maioria das pessoas não vai nem ficar sabendo que aconteceu, mas que terão fruto na eternidade, na felicidade eterna dos que foram confiados ao serviço do pastor.

“Decidi nada saber, senão Jesus Cristo e este crucificado”! É claro que Paulo não esquece a ressurreição de Jesus. Ele é o grande proclamador da ressurreição de Jesus, base para a nossa ressurreição e isso fica evidente nesta mesma epístola, com o maravilhoso capítulo 15. Mas sua ênfase na crucificação, na morte de Jesus, se dá pelo menos por dois motivos. Um, pelo contexto em que ele está, em que se valoriza aquilo que aparece, que é bonito, que é glorioso, que chama a atenção, pela sabedoria das palavras humanas, pela eloquência. Paulo insiste: Deus se torna conhecido no Cristo crucificado. “Deus na cruz é meu amado”, diz um dos belos hinos de nosso hinário. Maravilhosa verdade e confissão de fé!

Mas o outro motivo pelo qual Paulo anuncia o Cristo crucificado é pelo valor em si da morte de Cristo. Por meio dela o Deus humanado reconciliou o mundo consigo mesmo, pagou pelos pecados, tirou as culpas, abriu as portas da comunhão com Deus e da feliz vida eterna. Isso Paulo vive e desfruta ele próprio. Meus irmãos – isso nós temos como o mais preciso tesouro – na morte de Jesus o mundo – e cada um de nós – foi reconciliado com Deus.

Na sua pregação Paulo demonstrou, em termos muito práticos, o que significa anunciar o Cristo crucificado. Para ele não se trata de simplesmente contar uma história do que aconteceu lá em Jerusalém, algumas décadas antes da escrita desta carta. Para Paulo a obra de Cristo é presente. Ele não precisa usar de recursos de retórica, nem de emoções forçadas para “levar as pessoas até Jesus”. Ele traz Jesus até as pessoas – ou melhor, o próprio Jesus vem até as pessoas e assim Ele o faz hoje – na palavra anunciada, no batismo – que nos faz morrer e ressuscitar com Jesus, na santa ceia – em que recebemos seu corpo e seu sangue para perdão e fortalecimento na comunhão com ele e com os irmãos. Paulo quer deixar claro que ele não confia nas suas próprias habilidades retóricas para fazer o evangelho poderoso. O evangelho tem o poder de converter e sustentar na fé, pela ação do Espírito Santo.

O teólogo Donald Carson, a propósito das palavras de Paulo, alerta contra interpretações erradas sobre o que o apóstolo quer dizer. Ele afirma: “Seria completamente errado deduzir que Paulo fosse um orador incompetente, um mau comunicador. … O que Paulo evitava era usar de uma comunicação que trouxesse aplausos ao orador, mas desviasse as pessoas da mensagem. Pregadores preguiçosos não têm o direito de apelar a 1 Coríntios 2 para justificar a preguiça no estudo e a falta de cuidado no anúncio no púlpito. Estes versículos não proíbem uma preparação cuidadosa, paixão pelo que se faz, expressão clara da mensagem e mesmo uma apresentação persuasiva. Na verdade, [estas palavras de Paulo] alertam contra qualquer método que leve as pessoas a dizerem: ‘Que pregador maravilhoso’, ao invés de dizerem ‘Que Salvador maravilhoso!” (apud Lockwood, 1 Corinthians, p. 84, n. 18)

Neste tempo de Epifania, a Igreja medita de maneira especial na missão de Deus – na palavra que vem de Belém e que dos pastores e magos vai ao mundo. É significativo que iniciemos o ano letivo do Seminário neste tempo tão especial. Deus está realizando a sua obra, por meio da proclamação da cruz! Ele faz sua obra para nós e nosso bem eterno! Você e eu somos abraçados pelo Pai de amor, que nos deu Jesus como nosso querido Salvador. Ele faz sua obra por meio de nós, como instrumentos que anunciam sua graça e misericórdia conforme a vocação na qual fomos chamados.

Que neste ano letivo o gracioso Deus nos conduza pelo Seu Santo Espírito para que funcionários, professores e alunos desta casa, e a igreja que a mantém, sejam, primeiro, acolhidos e consolados no perdão e comunhão com o Pai que temos no Cristo crucificado; e também que sejam instrumentos no preparo de pregadores que saiam pelo mundo afora a anunciar a única mensagem que levará pessoas ao céu: Jesus Cristo, o crucificado, o nosso amado Salvador. Amém.

Autor: Professor, Ms. Gerson L. Linden, Seminário Concórdia.